Do outro lado do jardim
A rosa estava no jardim com suas companheiras flores, vivendo suas vidas de planta. Um dia, a Rosa decidiu que não queria mais viver no jardim. O problema é que o jardim pertencia a um prédio, e uma grade de ferro separava as rosas da liberdade. As rosas diziam para a Rosa:
"Mas o que você vai fazer lá fora? Você nem sabe o que tem lá fora!!!"
"Lá fora eu vou ser livre, você vai ver. Muito melhor lá fora do que presa aqui... o sol é estranho, a luz vem toda listrada, no meio dessas barras. Eu quero viver livre!!"
E a idéia foi tomando conta dos pensamentos da Rosa. Um dia, ela teve uma idéia. Iria absorver o máximo de luz do sol e água e se esforçaria muito para fazer o seu cabo crescer para então atravessar as grades. A cada dia em que o jardineiro ou o zelador apareciam, ela ficava em perfeita concentração. Enquanto suas amigas flores aproveitavam o alívio de receber água ou luz, ela pensava grande.
Do outro lado da rua, Mauro estava estático na cama. A família virou a cama de frente para a janela, para que Mauro pudesse pelo menos ver a rua e não se sentir tão entediado. Por mais que tentasse se livrar da família, mais preso a ela ficava. Sofreu o acidente numa das várias madrugadas em que ficava longe de casa. Ainda doía, o gesso não o deixava se movimentar, e coçava muito.
Talvez pelo desejo de deixar a casa dos pais (que segundo o próprio Mauro, não o entendiam), Mauro simpatizou com a rosa. Percebeu que a cada dia, ela crescia mais e mais, chegando perto da grade do prédio da frente. Mauro percebeu a intenção da rosa, de se libertar das grades, e começou a torcer por ela. Pensou várias vezes em pedir para alguém de sua casa ir lá e trazer a rosa para ele, mas achava que, como ele, ela deveria abandonar sua vidinha chata por si só.
E enquanto isso, a Rosa lutava bravamente, cada dia um pouco mais perto do jardim. O jardineiro e o zelador não ligavam para a evolução da pequena flor, que quase já não ouvia as colegas, de tão alto e para a frente que estava. Depois de alguns dias, alcançou a grade, tocando-a.
Mauro, que a essa altura já estava usando binóculos para acompanhar diariamente a evolução da rosa, ficou feliz por ela finalmente ter alcançado a grade. Começara a fisioterapia, e ainda não podia ficar fora da cama mais do que algumas poucas horas por dia. Ocupava o tempo observando a Rosa. Ela seria livre, como ele. Mauro pensava em sair de casa assim que se recuperasse, ele precisava e merecia essa liberdade.
Mais uma semana, e a Rosa finalmente atravessara a grade, nem tanto pelo crescimento, e sim mais pelo peso dela, que a empurrou para a frente. Ela ficou tão feliz que gritava para as colegas (que estavam láááááá embaixo):
"Consegui, consegui!!!! Sou livre!!!"
Mauro ficou muito feliz com o que vira. A Rosa, com sua cabeça para fora da grade. Parecia um sinal!!! Mais uma semana de fisioterapia e já estaria bom para se mandar de casa, fugir para o mundo.
As outras flores, entretanto, um tanto preocupadas, perguntavam:
"E agora, para onde você vai?"
"Ah, primeiro vou atravessar a rua, ver como é o outro lado"
E a Rosa se esforçou. Fez uma força incrível para sair pelo meio das grades, mas não conseguia. Estava se desagastando, usando toda a energia que a água e o sol haviam lhe dado, e nada. Quando perguntada pelas outras flores o que tinha acontecido, respondia:
"É essa raiz!!! Ela não me deixa ir pra lugar nenhum!!!!"
As flores, preocupadas, davam 1000 sugestões, nenhuma que servisse. E Mauro, em seu quarto, olhava e pensava: "e agora, para onde ela vai?"
Um dia, o jardineiro apareceu no prédio, e a Rosa ouviu algo do tipo "pode cortar, já está fora do prédio, a síndica reclamou". E a Rosa entendeu a mensagem: ela seria livre!!! O jardineiro a livraria daquela incômoda raiz, e ela conheceria o mundo!!! O Jardineiro cortou a Rosa, e ela despencou no chão. Mauro, olhando tudo aquilo, se perguntava "e agora? O que ela vai fazer?".
Quando pensou em ir buscar a Rosa do outro lado da rua, um senhor gordo, suado, sem se preocupar com o que estava no chão, pisou em cheio na flor, que estava caída, sem poder ir para lugar nenhum. As flores choraram muito, gastaram muita energia com a tristeza, e Mauro apenas olhou, um olhar perdido, cheio de pontos de interrogação. Dias depois, passando em frente ao prédio, Mauro ouviu o zelador dizer que as flores do jardim iriam para a fazenda da síndica, que colocaria novas no lugar.
Mauro pensou nas raízes, na fuga, no corte e na morte, e decidiu fazer as pazes com a família e ficar em casa. Descobriu naqueles dias que é melhor mudar através do amor do que através da dor, e nunca largou de suas raízes, não importa onde elas estivessem.