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  • Sexta-feira, 11 de fevereiro de 2005


    Cinzas


    Janaína caminha pela praia, pedaços de fantasias ficando pelo meio do caminho: chapéu, casamento, sapatilha, felicidade, saia de lantejoulas, orgulho, colar, auto-estima... o sol despontava na praia, convidando os foliões a voltar para casa, convocando para o retorno ao lugar comum.

    Ela cruzava com pessoas caídas pelo chão, dormindo nas guias das calçadas, sonhando com lugares onde o carnaval não tem fim. Pensa como é possível ainda estar de pé; certamente bebeu o mesmo que eles. Olha para os casais abraçados, saindo de bailes e lança um olhar triste.

    A carreira musical acabou meses depois que as rádios falavam que Janaína e Pierre eram a “sensação da música romântica”: formaram uma dupla, movida a músicas açucaradas de novela, quando tinham 15 anos. Colocaram um hit nas paradas (“Levo Você Comigo”) e a coreografia romântica emplacou: namoraram e casaram. Aí, Pierre cansou da coreografia ditada pelo casamento e Janaína ficou sozinha no apartamento do Leblon.

    Janaína olha para a procissão de garis que sobre a rua, ditando o ritmo da normalidade, que voltava ao Rio depois de cinco dias de festa. Ouve um deles falar da atriz de TV que desfilou na escola, desfilando novos seios e velhos clichês. Lembra de como era antes, dos flashs, da atenção que o mundo lhe dava, e de como tudo isso sumiu, varrido rua abaixo.

    Passou os primeiros seis meses do desquite em depressão, rasgando fotos e memórias. Os dias passavam mais devagar, enchendo o apartamento de más lembranças. O trabalho como assistente na produtora foi o único luxo que sobrou da carreira, e foi a única porta que abriu frente à menção de seu nome.

    Sentia muita falta do tempo em que estavam juntos; melhor, não conseguia se lembrar de com era não estar junto com Pierre. A dupla engrenou aos 14 anos, mas cantavam em programas de calouros em rádio e TV desde os 10. Pierre se foi porque queria saber como era não estar com ela. E gostou.

    Não se lembrava da última vez que celebrou o carnaval, e a insistência dos colegas a fez vestir a fantasia de colombina. Porém, ao chegar em casa, tira a fantasia de Colombina e se espanta: tudo que via era um pierrô.

    “Um Pierrô apaixonado
    Que vivia só cantando
    Por causa de uma Colombina
    Acabou chorando,
    Acabou chorando

    A Colombina entrou no botequim
    Bebeu, bebeu, saiu assim, assim
    Dizendo: Pierrô cacete
    Vai tomar sorvete
    Com o Arlequim

    Um grande amor
    Tem sempre um triste fim
    Com o Pierrô aconteceu assim
    Levando esse grande chute
    Foi tomar vermute
    Com amendoim”

    (Pierrô Apaixonado - Noel Rosa e Heitor dos Prazeres / 1936)