Obs: Por um erro de publicação, o texto a seguir permaneceu por quase uma semana sem o último parágrafo.
Tap-tap
Tap, tap, tap, tap, tap...
São 44 só hoje, ela deve estar muito ocupada. Pelo menos, é o que Augusto pensa, já que não pode sair e ver. Aliás, não pode sair para nada. O quarto tem 4x4 metros, suficiente para uma cama, armário e saída pra um banheiro. Mais nada.
Nas paredes, nenhuma foto, nenhuma lembrança de ninguém. Augusto queria fotos da sua família, mas Maria Eduarda dizia que pendurar coisas na parede estragaria a pintura. Ele sempre foi uma pessoa religiosa, ainda mais depois que Marta morreu, mas um crucifixo na parede estava fora de cogitação; mais uma vez, Maria Eduarda: “sem chance, não gosto de ficar pendurando essas coisas, parece que estou ajudando a matar o homem”.
Augusto não entendia bem o sentido do que ela falou, mas até aí não entendia nenhuma atitude da sobrinha. Inclusive o quarto. Ele conhecia cada rachadura, cada mancha na parede, cada mão de tinta mal colocada. Quando seu mundo se resolve a 4 metros quadrados, você o conhece mesmo que não queira.
Tap, tap, tap, tap...
45, 46, 47....52. Isso, 52 hoje. 312 nessa semana...
Sentia um certo orgulho ao calcular. Com 80 anos, poucos são os que podem fazê-lo com tamanha precisão. Começou a contar os passos da sobrinha e sua filha na escada há 1 ano atrás, quando a solidão começou a apertar. No começo era difícil, mas com a prática e a reclusão, acabou se tornando um especialista.
Às vezes, a sobrinha dá passos rápidos: taptaptaptaptaptap, quando quer vir tirar roupa do varal por causa da chuva. Às vezes, são passos lentos: tap....tap....tap....tap, quando está subindo e seu peso a deixa cansada. Ela já era uma moça grande, mas desde que resolveu viver da aposentadoria de Augusto, largou o emprego e passou a fazer artesanatos, em casa e comendo. Muito.
O real desafio era quando a filha de Maria Eduarda descia as escadas junto: tap-tap, tap-tap...passos conjuntos, Augusto tomava cuidado para não contar mais passos do que devia, para não perder a conta. Pelo menos eram somente elas duas na casa, o marido de Maria Eduarda saiu de casa bem antes de Augusto ser chamado de “estorvo” e ser trancado no quarto.
Tap, tap, tap, tap...
60. O ar dentro do quarto era velho, pesado; se a tristeza tivesse um odor característico, Augusto tinha certeza que seria aquele. Não se lembrava mais como era o ar fresco: as pequenas janelas perto do teto traziam uma resga de luz, e quando ele realmente queria ver o sol, tinha que subir na cama e colocar os olhos entre as pequenas janelas.
Como estava na hora do almoço, os passos se tornaram mais altos até perto da porta. Augusto já sabia da rotina: deitado na cama, nem se levantou enquanto Maria Eduarda abria uma frestada porta e colocava o prato no chão, trancando logo em seguida. O almoço estava bom, prato cheio de coisas boas. Mais do que uma autêntica preocupação da sobrinha, era uma maneira dela garantir seu “investimento”.
Quando Augusto ficava doente e precisava de remédios, Maria Eduarda (pelo mesmo motivo) comprava-lhe os remédios, mas ela descontava na comida, tornando-a mais escassa quando ele melhorava. Nos fins de semana em que a sobrinha e menina iam para a praia, Maria Eduarda deixava-lhe um Tupperware com sanduíches e uma garrafa de chá.
Sentia falta de ter uma família que se importasse com ele; porém, não pensava mal da sobrinha, pelo menos era alguém que cuidava dele, em um mundo onde não seria querido por ninguém mais. Podia ser pior, pensava Augusto, mais para se convencer do que para se confortar.
61, 62...ou 64? Eram 60 antes de começar? E agora? Ela já subiu a escada. Augusto, perdido nas contas, não acompanhou. Teria que começar do zero, tudo de novo, como pôde errar? Velho idiota, não presta para nada, merece tudo que está recebendo. Deitou na cama, e chorou, chorou, chorou mais lágrimas do que podia contar.
Notas: Reconheço que este conto não é um dos meus melhores esforços, e é parte de um problema que me toma muito: eu tenho pena dos meus personagens, e por isso quer largá-los logo, exorcizá-los. Acostumei com o fato de que nem sempre os finais são felizes. Então, às vezes, escrevo com vistas a terminar logo e trancar a porta atrás de mim, o que nem sempre traz grandes resultados. Nem sempre a minha criatividade me leva para lugares bonitos e pessoas felizes.
A premissa desse conto é parcialmente baseada em uma história real (quais premissas não são?), e decidi a princípio que alteraria a situação de um velho trancado no quarto pra um preso em uma cela do DOPS nos anos 70, contando os passos de seu torturador pela escada; a intenção era proteger pessoas e fatos. Porém, mantive a premissa, pelo fato de não existir prisão pior que aquela que alguns de nós construímos ao redor da velhice.