Sexta-feira, 21 de janeiro de 2005
As peças que faltam
Carlos tinha 45 anos e a cabeça cheia de problemas: trabalho, carro, contas, família... passava os dias correndo e as noites acordado. Pensava em tudo que tinha para resolver, e o simples volume de dificuldades o paralisava. Ia tocando a vida sem mudar nada.
Também tinha Marina para cuidar. Há 6 anos atrás, se o perguntassem na maternidade como ele gostaria que a filha dele fosse quando nascesse, ele não daria resposta tão perfeita quanto a realidade. Recebera os olhos amendoados da mãe (acompanhados do olhar brilhante, também da mãe) e os cabelos lisos e loiros do pai. Iluminava a casa só de estar nela; era um presente, apesar dos problemas da casa e de Carlos.
Um sábado, Carlos resolveu tirar do armário um dos velhos quebra-cabeças de seu pai. Em uma daquelas manias que a gente adquire somente quando ultrapassa a terceira idade, o sr. Manoel virou um compulsivo juntador de pecinhas. A Torre Eiffel, a Estátua da Liberdade, o mapa-mundi, quadros de daVinci, Michelângelo, Monet e outros eram montados com extrema facilidade. Na semana que Carlos comprou um daqueles quebra-cabeças 3D novos como presente de aniversário, o sr. Manoel se foi.
Voltando aos quebra-cabeças, Carlos pegou um e jogou as peças na mesa. Montado, formaria o Cristo Redentor. Como não fazia nada a não ser que tivesse certeza que daria certo, contou as peças primeiro. Faltavam 32. As constantes mudanças de lugar, de um armário para outro, ao longo dos anos, causavam isso. Desistiu da brincadeira e guardou a caixa de volta no armário. Sentou no sofá e pensou em quantas peças que faltavam na sua vida, outro quebra-cabeça que não valia a pena ser montado.
Horas depois, enquanto assistia TV, Marina o chamou:
“Papai, venha ver o que eu fiz”.
Carlos foi até a mesa da sala de jantar, também herança de seu pai, e viu o Cristo Redentor, de braços abertos e com 32 buracos onde deveriam existir peças, montado na mesa. Carlos podia ter parado para admirar, mas ao invés disso perguntou para Marina:
“Você não viu que faltam peças? Para que se deu a esse trabalho?”.
Marina, como que espantada com a pergunta, respondeu:
“Papai, assim fica mais fácil quando acharmos as peças que perdemos”.
Naquele momento, Carlos percebeu, em meio a lágrimas que começavam a sair de seus olhos, que enquanto se permitisse ficar despedaçado, nunca saberia encaixar as peças que faltam. Chamou Marina e juntos montaram todos os outros quebra-cabeças que encontraram pela frente.
Um deles se parecia muito com o coração de Carlos.
Também tinha Marina para cuidar. Há 6 anos atrás, se o perguntassem na maternidade como ele gostaria que a filha dele fosse quando nascesse, ele não daria resposta tão perfeita quanto a realidade. Recebera os olhos amendoados da mãe (acompanhados do olhar brilhante, também da mãe) e os cabelos lisos e loiros do pai. Iluminava a casa só de estar nela; era um presente, apesar dos problemas da casa e de Carlos.
Um sábado, Carlos resolveu tirar do armário um dos velhos quebra-cabeças de seu pai. Em uma daquelas manias que a gente adquire somente quando ultrapassa a terceira idade, o sr. Manoel virou um compulsivo juntador de pecinhas. A Torre Eiffel, a Estátua da Liberdade, o mapa-mundi, quadros de daVinci, Michelângelo, Monet e outros eram montados com extrema facilidade. Na semana que Carlos comprou um daqueles quebra-cabeças 3D novos como presente de aniversário, o sr. Manoel se foi.
Voltando aos quebra-cabeças, Carlos pegou um e jogou as peças na mesa. Montado, formaria o Cristo Redentor. Como não fazia nada a não ser que tivesse certeza que daria certo, contou as peças primeiro. Faltavam 32. As constantes mudanças de lugar, de um armário para outro, ao longo dos anos, causavam isso. Desistiu da brincadeira e guardou a caixa de volta no armário. Sentou no sofá e pensou em quantas peças que faltavam na sua vida, outro quebra-cabeça que não valia a pena ser montado.
Horas depois, enquanto assistia TV, Marina o chamou:
“Papai, venha ver o que eu fiz”.
Carlos foi até a mesa da sala de jantar, também herança de seu pai, e viu o Cristo Redentor, de braços abertos e com 32 buracos onde deveriam existir peças, montado na mesa. Carlos podia ter parado para admirar, mas ao invés disso perguntou para Marina:
“Você não viu que faltam peças? Para que se deu a esse trabalho?”.
Marina, como que espantada com a pergunta, respondeu:
“Papai, assim fica mais fácil quando acharmos as peças que perdemos”.
Naquele momento, Carlos percebeu, em meio a lágrimas que começavam a sair de seus olhos, que enquanto se permitisse ficar despedaçado, nunca saberia encaixar as peças que faltam. Chamou Marina e juntos montaram todos os outros quebra-cabeças que encontraram pela frente.
Um deles se parecia muito com o coração de Carlos.