Sexta-feira, 14 de janeiro de 2005
O menino e o tempo
O menino tinha uma idéia fixa que ocupava todo seu mundinho: queria controlar o tempo. Para isso, desenvolveu um sistema simples (o que para uma criança é complexo, você sabe): quando o menino tocasse a ponta do indicador esquerdo com a ponta do indicador direito, o tempo pararia. Quando ele tocasse os dois e jogasse os dedões para trás, o tempo voltaria; e, obviamente, quando os jogasse para frente, o tempo avançaria.
Que barato!!! Imagine só, o menino jogando bola com os amigos na rua, e quando já começasse a ficar escuro, ele pararia o tempo, para todos jogarem até as pernas cansarem bastante; ele até dormiria direito, sem acordar o papai e a mamãe no meio da noite, de tão cansado que ficaria.
Quando ele fosse no dentista ou tomar injeção, poderia jogar os polegares bem forte para frente, e logo depois que entrasse no consultório, já estaria saindo. Ainda por cima, não choraria e a mamãe olharia para ele e diria: “mas que menino educado, vai ganhar um sorvete”, e as amigas dela iriam ver o menino e pensar a mesma coisa, deixando a mamãe toda feliz. Poderia também balançar os pequenos polegares para frente para fazer a aula passar mais rápido, e chegar a hora do lanche, aí faria de novo para chegar a hora de ir embora da escola.
Se jogasse os polegares para trás, poderia voltar a passar as férias com o vovô na praia, quando tomou sorvete, se sujou todo e entrou no mar com a mamãe para limpar. Não sabia que a água era salgada, descobriu isso naquele dia. Também poderia jogar os polegares para frente e chegar logo nas férias, quando o vovô levaria todo mundo para a praia de novo. Quando o papai voltasse do trabalho, era só juntar os indicadores para parar o tempo e eles poderem brincar horas e horas sem parar, aí não ia parecer que eles se viam tão pouco.
A vida do menino seria uma maravilha se pudesse controlar o tempo. A idéia não fugia da cabeça dele, nem mesmo na hora de dormir (hora de parar o tempo, para dormir bastante) ou de estudar (hora de fazer o tempo passar rápido, para chegar a hora de brincar).
Aí, um dia, ele entrou na 5a série e viu a menina. Ela tinha cabelos loiros com presilhas coloridas em formato de borboleta espalhadas por ele, aparelho nos dentes com borrachinhas cor verde limão, pulseirinha com um monte de penduricalhos, brincos vermelhos e bolsinha rosa.
De repente, o tempo parou. Aí, ele correu e o menino se formou na faculdade. Correu de novo e ele se casou (com outra menina) e teve filhos. O tempo parou um pouco, parecia que o final do mês nunca chegava, mas as contas corriam. Tudo se acalmou depois e o tempo correu de novo. Quando se deu conta, o menino era vovô. Quando ele ficou bem velhinho, o tempo começou a correr para trás e ele virou menino de novo. Aí, o tempo parou para nunca mais voltar.
E ele nem precisou dos dedos da mão.
Nota: eu adoro contos infantis. Acho que é mais fácil entrar em contato com o lado criança da gente, onde a gente não se julga e não ignora nenhuma idéia. Fico mais feliz ainda quando consigo fazer um conto adulto - e criança lá se preocupa com quando ficar velha? - trazendo esse tom infantil para a conversa. Espero que vocês gostem tanto disso quanto eu.
Que barato!!! Imagine só, o menino jogando bola com os amigos na rua, e quando já começasse a ficar escuro, ele pararia o tempo, para todos jogarem até as pernas cansarem bastante; ele até dormiria direito, sem acordar o papai e a mamãe no meio da noite, de tão cansado que ficaria.
Quando ele fosse no dentista ou tomar injeção, poderia jogar os polegares bem forte para frente, e logo depois que entrasse no consultório, já estaria saindo. Ainda por cima, não choraria e a mamãe olharia para ele e diria: “mas que menino educado, vai ganhar um sorvete”, e as amigas dela iriam ver o menino e pensar a mesma coisa, deixando a mamãe toda feliz. Poderia também balançar os pequenos polegares para frente para fazer a aula passar mais rápido, e chegar a hora do lanche, aí faria de novo para chegar a hora de ir embora da escola.
Se jogasse os polegares para trás, poderia voltar a passar as férias com o vovô na praia, quando tomou sorvete, se sujou todo e entrou no mar com a mamãe para limpar. Não sabia que a água era salgada, descobriu isso naquele dia. Também poderia jogar os polegares para frente e chegar logo nas férias, quando o vovô levaria todo mundo para a praia de novo. Quando o papai voltasse do trabalho, era só juntar os indicadores para parar o tempo e eles poderem brincar horas e horas sem parar, aí não ia parecer que eles se viam tão pouco.
A vida do menino seria uma maravilha se pudesse controlar o tempo. A idéia não fugia da cabeça dele, nem mesmo na hora de dormir (hora de parar o tempo, para dormir bastante) ou de estudar (hora de fazer o tempo passar rápido, para chegar a hora de brincar).
Aí, um dia, ele entrou na 5a série e viu a menina. Ela tinha cabelos loiros com presilhas coloridas em formato de borboleta espalhadas por ele, aparelho nos dentes com borrachinhas cor verde limão, pulseirinha com um monte de penduricalhos, brincos vermelhos e bolsinha rosa.
De repente, o tempo parou. Aí, ele correu e o menino se formou na faculdade. Correu de novo e ele se casou (com outra menina) e teve filhos. O tempo parou um pouco, parecia que o final do mês nunca chegava, mas as contas corriam. Tudo se acalmou depois e o tempo correu de novo. Quando se deu conta, o menino era vovô. Quando ele ficou bem velhinho, o tempo começou a correr para trás e ele virou menino de novo. Aí, o tempo parou para nunca mais voltar.
E ele nem precisou dos dedos da mão.
Nota: eu adoro contos infantis. Acho que é mais fácil entrar em contato com o lado criança da gente, onde a gente não se julga e não ignora nenhuma idéia. Fico mais feliz ainda quando consigo fazer um conto adulto - e criança lá se preocupa com quando ficar velha? - trazendo esse tom infantil para a conversa. Espero que vocês gostem tanto disso quanto eu.