Sexta-feira, 17 de dezembro de 2004
Memórias de um velório
Sabe aquilo que dizem sobre velórios? A lembrança das pessoas presentes fica um tanto embaçada, talvez por querer estar em outro lugar que não seja um tão triste, então as memórias do evento ficam meio para trás. Leonardo estava sentindo isso durante o serviço, ao lado de várias pessoas da família. É verdade, ele era meio que divorciado emocionalmente de sua família, desde que sua mãe morreu 5 anos antes. Naquela época, a sensação era a mesma de hoje, de confusão, de dormência. Quando dona Márcia morreu, seu pai já tinha saído de casa há tempo suficiente para esquecer que tinha uma família.
E o cheiro...odiava o cheiro de velórios. Aquela mistura de ambiente esterilizado de hospital com coroas de flores, perfumes, e gente velha. Ele ficava enjoado, a ponto de ter que sair para tomar ar de tempos em tempos. Numa dessas saídas, olhou para a janela do corredor do prédio do cemitério.
O sol começava a ficar mais forte, batendo em cheio nas placas das covas, gerando brilhos interessantes. O calor não chegava ao prédio, estranhamente frio como a morte deveria ser. De qualquer maneira, era um belo dia para qualquer coisa, menos para morrer (não que haja bons dias para morrer, acrescentou). Da janela, via duas ruas de acesso aos jazigos: uma à direita que subia, outra à esquerda que descia. O canteiro central era povoado por palmeiras enormes, e grama surrealisticamente verde. Em uma das palmeiras, a placa apontava para a pista da esquerda e dizia “proibido o retorno”. O cemitério prosseguia morro acima até se perder no horizonte.
Voltou-se para o salão, e ao entrar encarava o caixão. Bela madeira, bem lustrada, com os detalhes em dourado, e todo fechado, coberto pela tampa. Caixões eram todos iguais, mas nem por isso deixavam de ser bonitos. Leonardo só estranhava tanto esmero para algo que iria pra o fundo da terra mesmo. Porém, acreditava que enterros eram sobre homenagear, e nada homenageia mais que um belo caixão de jacarandá, coroado por flores de R$150. Por mais mórbido que seja.
Com horas ainda faltando para o enterro, sua cabeça se distraia olhando para as pessoas. Como em um jogo de adivinhação, tentava lembrar quem eram aquelas faces conhecidas; primos de graus distantes, tias-avós, e outros parentescos povoavam o salão. Nunca foi muito família, sempre foi meio afastado dessas pessoas, então não era de se espantar que ninguém falava com ele; muitos ali provavelmente nem lembravam dele, ou estavam chorosos demais para perceber quem estava ou não lá.
As conversas, os papos furados permeavam o ambiente junto com os odores; era a segunda coisa que mais lhe irritava em velórios. Tinha uma teoria sobre conversas em velórios que era quase sempre confirmada: as pessoas nessa situação gostam de falar sobre a morte incessantemente. Claro que se existe um lugar apropriado para se falar disso, é um cemitério, mas as pessoas têm uma fixação doente pela morte quando presentes em um velório. Talvez a morte de alguém conhecido seja uma chamada, talvez lembre as pessoas do quão perto elas estão de algo que nem pensam durante um dia normal. Talvez falem sobre morte simplesmente para provarem para si mesmas que ainda estão vivas.
Leonardo achava isto gozado; tudo o que pensava durante velórios era sobre a vida. Quer dizer, uma pessoa que morre é uma série de desejos não realizados, amores não vividos, sensações não experimentadas...um velório é um lugar perfeito para se pensar em tudo que vai fazer logo depois que o morto for enterrado, para depois não se fazer nada. Continuava a se distrair com os presentes, até que seu olhar caiu ruidosamente sobre uma pessoa: dona Lurdes.
Dona Lurdes, ou Lurdinha, como a mãe de Leonardo chamava a gorda e simpática senhora, tinha a face da desolação; parecia ter ganho 10 anos e perdido toda a cor de suas bochechas rosadas, agora cobertas por lágrimas grossas e brilhantes. Sua melhor lembrança de Lurdinha é do dia em a mãe terminou a pintura. Leonardo lembra que sua mãe sempre foi muito boa em pintura, e seu maior orgulho foi ter pintado o rosto do filho (“belo rosto” como ela diria), eternizado na tela com tinta.
Dona Lurdes foi a primeira a ver a pintura na época, junto com Leonardo, e ele nunca tinha visto tamanho brilho nos olhos daquela senhora, de ver o filho da amiga tão belamente retratado. Agora, o brilho se fora, e Leonardo se pergunta onde está o marido de Lurdinha que não está lá para ampará-la. A pergunta é respondida na mesma hora, com a entrada do sr. Roberto no salão.
Os braços já idosos carregavam uma grande moldura, e ele se dirigia ao fundo do salão, atrás do caixão. Roberto ajeita a moldura, e o Leonardo reconhece o quadro: um retrato de um jovem de 15 anos. O choque o leva a reagir mais lentamente, e só percebe depois de longos segundos que é seu retrato, o mesmo pintado pela mãe 10 anos atrás. Subitamente, as coroas ficam mais claras, e os textos aparecem: “Saudades do querido sobrinho”, “Homenagem ao nosso amigo”.
Ele corre pelo salão, o coração batendo forte no peito (batendo?). Na porta do salão, a placa diz, com as letras tão devastadores que lhe machucam os olhos: “Leonardo Mendes Rabelo”. Sente-se tonto, precisa respirar (precisa mesmo?). Olha para as mãos, e as vê sumindo e reaparecendo, como em um filme desfocado. Quer chorar, mas não consegue, as lágrimas já não existem mais. Pensa na vida, e no que não vai fazer mais. Não pensa mais em morte, porque não pode se convencer de que está vivo.
Vira-se mais uma vez para a janela do corredor, observa o mesmo canteiro central do cemitério, vê as pistas que agora só parecem subir até o horizonte e fixa o olhar uma última vez na placa que diz: “proibido o retorno”. Fecha os olhos, enquanto se desfaz, viajando do frio do corredor para o calor do sol.
E o cheiro...odiava o cheiro de velórios. Aquela mistura de ambiente esterilizado de hospital com coroas de flores, perfumes, e gente velha. Ele ficava enjoado, a ponto de ter que sair para tomar ar de tempos em tempos. Numa dessas saídas, olhou para a janela do corredor do prédio do cemitério.
O sol começava a ficar mais forte, batendo em cheio nas placas das covas, gerando brilhos interessantes. O calor não chegava ao prédio, estranhamente frio como a morte deveria ser. De qualquer maneira, era um belo dia para qualquer coisa, menos para morrer (não que haja bons dias para morrer, acrescentou). Da janela, via duas ruas de acesso aos jazigos: uma à direita que subia, outra à esquerda que descia. O canteiro central era povoado por palmeiras enormes, e grama surrealisticamente verde. Em uma das palmeiras, a placa apontava para a pista da esquerda e dizia “proibido o retorno”. O cemitério prosseguia morro acima até se perder no horizonte.
Voltou-se para o salão, e ao entrar encarava o caixão. Bela madeira, bem lustrada, com os detalhes em dourado, e todo fechado, coberto pela tampa. Caixões eram todos iguais, mas nem por isso deixavam de ser bonitos. Leonardo só estranhava tanto esmero para algo que iria pra o fundo da terra mesmo. Porém, acreditava que enterros eram sobre homenagear, e nada homenageia mais que um belo caixão de jacarandá, coroado por flores de R$150. Por mais mórbido que seja.
Com horas ainda faltando para o enterro, sua cabeça se distraia olhando para as pessoas. Como em um jogo de adivinhação, tentava lembrar quem eram aquelas faces conhecidas; primos de graus distantes, tias-avós, e outros parentescos povoavam o salão. Nunca foi muito família, sempre foi meio afastado dessas pessoas, então não era de se espantar que ninguém falava com ele; muitos ali provavelmente nem lembravam dele, ou estavam chorosos demais para perceber quem estava ou não lá.
As conversas, os papos furados permeavam o ambiente junto com os odores; era a segunda coisa que mais lhe irritava em velórios. Tinha uma teoria sobre conversas em velórios que era quase sempre confirmada: as pessoas nessa situação gostam de falar sobre a morte incessantemente. Claro que se existe um lugar apropriado para se falar disso, é um cemitério, mas as pessoas têm uma fixação doente pela morte quando presentes em um velório. Talvez a morte de alguém conhecido seja uma chamada, talvez lembre as pessoas do quão perto elas estão de algo que nem pensam durante um dia normal. Talvez falem sobre morte simplesmente para provarem para si mesmas que ainda estão vivas.
Leonardo achava isto gozado; tudo o que pensava durante velórios era sobre a vida. Quer dizer, uma pessoa que morre é uma série de desejos não realizados, amores não vividos, sensações não experimentadas...um velório é um lugar perfeito para se pensar em tudo que vai fazer logo depois que o morto for enterrado, para depois não se fazer nada. Continuava a se distrair com os presentes, até que seu olhar caiu ruidosamente sobre uma pessoa: dona Lurdes.
Dona Lurdes, ou Lurdinha, como a mãe de Leonardo chamava a gorda e simpática senhora, tinha a face da desolação; parecia ter ganho 10 anos e perdido toda a cor de suas bochechas rosadas, agora cobertas por lágrimas grossas e brilhantes. Sua melhor lembrança de Lurdinha é do dia em a mãe terminou a pintura. Leonardo lembra que sua mãe sempre foi muito boa em pintura, e seu maior orgulho foi ter pintado o rosto do filho (“belo rosto” como ela diria), eternizado na tela com tinta.
Dona Lurdes foi a primeira a ver a pintura na época, junto com Leonardo, e ele nunca tinha visto tamanho brilho nos olhos daquela senhora, de ver o filho da amiga tão belamente retratado. Agora, o brilho se fora, e Leonardo se pergunta onde está o marido de Lurdinha que não está lá para ampará-la. A pergunta é respondida na mesma hora, com a entrada do sr. Roberto no salão.
Os braços já idosos carregavam uma grande moldura, e ele se dirigia ao fundo do salão, atrás do caixão. Roberto ajeita a moldura, e o Leonardo reconhece o quadro: um retrato de um jovem de 15 anos. O choque o leva a reagir mais lentamente, e só percebe depois de longos segundos que é seu retrato, o mesmo pintado pela mãe 10 anos atrás. Subitamente, as coroas ficam mais claras, e os textos aparecem: “Saudades do querido sobrinho”, “Homenagem ao nosso amigo”.
Ele corre pelo salão, o coração batendo forte no peito (batendo?). Na porta do salão, a placa diz, com as letras tão devastadores que lhe machucam os olhos: “Leonardo Mendes Rabelo”. Sente-se tonto, precisa respirar (precisa mesmo?). Olha para as mãos, e as vê sumindo e reaparecendo, como em um filme desfocado. Quer chorar, mas não consegue, as lágrimas já não existem mais. Pensa na vida, e no que não vai fazer mais. Não pensa mais em morte, porque não pode se convencer de que está vivo.
Vira-se mais uma vez para a janela do corredor, observa o mesmo canteiro central do cemitério, vê as pistas que agora só parecem subir até o horizonte e fixa o olhar uma última vez na placa que diz: “proibido o retorno”. Fecha os olhos, enquanto se desfaz, viajando do frio do corredor para o calor do sol.