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  • Sexta-feira, 03 de dezembro de 2004

    O princípio e o fim da incerteza

    A chuva fina não o incomoda tanto quanto o resto do mundo. O pára-brisa não limpava o vidro direito, talvez fosse hora de trocar, e ele sabe que tudo que não funciona deve ser trocado, hoje mais do que nunca. Pelo menos, a rua está vazia. Não resistiu a idéia de se embebedar, por menos que gostasse de beber, gostava da sensação que a bebida trazia; ou seja, fazia algo que gostava de cara feia.

    Eugênio também entendia de cara feia, tão bem quanto da sensação de ser trocado. O brilho da chuva no asfalto dá um aspecto quase envidraçado à avenida, que de alguns em alguns metros apresenta sua tradicional bateria de prostitutas, mendigos e gente da noite. Sempre que passa por aqui, pensa se teria coragem de alugar uma das moças que desfilam ao longo da avenida, para ver se alguma delas poderia resolver seu problema. "Putas são para perdedores", fixa na mente enquanto dobra para entrar na Avenida Paulista, e ignorando que ele mesmo se sente um perdedor hoje.

    No fundo, teme não ser capaz de uma ereção depois de hoje. Precisa até mesmo botar a mão dentro da calça de tempos em tempos para sentir que ainda tem um pênis. Não que ele precisasse de um; afinal, o que tinha não desempenhava a função muito bem.

    Que maravilha seria funcionar com uma estranha!!!! Poderia colocar a culpa em Joana por sua incapacidade de satisfazê-la. Mas de que adiantaria? Os papéis foram assinados hoje, em meio a olhares de ódio, tristeza, mágoa e por fim pena. O pior foi ter que deixar o fórum sob os olhares acusadores de todos. Para Eugênio, era como se cada uma das pessoas presentes lá soubesse todos os detalhes de seu processo de divórcio, até os mais sórdidos.

    A chuva agora passa por um período de incerteza; ora pinga um pouco, ora aperta mais. Lembrou-se do princípio da incerteza, formulado por Werner Heisenberg, que diz: "quando desejamos prever a posição e a velocidade futuras de uma partícula, devemos ser capazes de conhecer, antes, a posição e a velocidade que essa partícula tem atualmente". O Princípio da Incerteza de Eugênio diz: “se o Eugênio já sabia como sua vida começou, ele já tinha uma idéia para onde ela iria”.

    O conhecimento teórico não é simples cultura de almanaque; sua carreira é a Física, ou melhor, as aulas de Física que ministra no Colégio Bernardo Agostinho. Se o jaleco já não fosse suficiente, ele tinha aquela cara de alguém que mexe com algo complexo, um tipo introspectivo, 45 anos com postura de 60, alguém a quem você daria seu lugar na fila. A vida o envelheceu; ou melhor, a falta de uma que o satisfizesse.

    O farol passa do vermelho para o verde, o que é uma sorte, pois Eugênio está perdido em pensamentos, afogado em um labirinto etílico. O mesmo não ocorre no próximo farol: Eugênio, sem ao menos reduzir, passa no vermelho. Ele daria tanta importância a este farol quanto ao anterior, não fosse o clarão cegante na sua face.

    Meio que por instinto, e pelo fato de que o flash quebrara a visão de seu espelho d’água na rua, Eugênio pisa com força no freio. Claro que, no estado em que se encontra, Eugênio ainda precisou de 30 segundos fora do carro para deduzir que fora fotografado por um radar da companhia de tráfego. Deu ré, não causando um acidente mais por sorte (ninguém na rua) do que por consciência. A consciência ficou no bar horas atrás. Parado, fica dentro do carro, olhando para o poste, tentando enxergar a maldita caixa do radar, e não vendo nada.

    Já não dava mais importância pra o fato; era mais um tapa na cara de muitos hoje. Engata a primeira e sai lentamente, sendo fuzilado logo em seguida. Dessa vez, o clarão parecia maior ainda, e Eugênio perde o controle por alguns segundos. Não, não, não...chega desta porra!!!!! Mais uma ré, e dessa vez um quase acidente. Se o outro motorista estivesse no mesmo estado de Eugênio, os carros estariam grudados a esta altura.

    Eugênio não dá a mínima, só queria achar a merda do radar fotográfico. Para, fica olhando mais um pouco, e nada. A chuva dificulta a visão. Desce do carro, fica encarando o semáforo, que lhe lança um olhar vermelho, como um ponto raivoso na sua cabeça. Cadê esta merda??? Resolveu chegar mais perto...e quase é derrubado pelo clarão. O flash dispara não uma, mas duas vezes, seguidas, como duas pinceladas de luz. Eugênio não enxerga nada além de pontos pretos na frente dos olhos, e corre para o poste. Chuta, soca, ignorando os cortes e hematomas que isso iria produzir no seu corpo, e gritava:

    SUA PUTA, SUA PUTA MALDITA, LARGUE DE MIM!!!!! QUE MAIS VOCÊ QUER DE MIM!!!!!! QUER ME FODER DE NOVO, QUER????? SUA PUTA!!!!!

    Claro que não se referia ao radar, muito menos ao inocente poste que o segurava. Para Eugênio nada mais importa. É nesse ponto que se pergunta: seria a bebida ou perdi a noção de vez? O corpo dói, ele choraminga, só quer ir para casa.

    Vencera seus demônios internos...talvez até vá escrever em seu diário quando chegar em casa. Achava isso relaxante (escrever, não esmurrar postes às 3 da manhã), e acha que realmente percebeu o quão ridículo (e encharcado da chuva) se sentia naquele momento. Na verdade, viu que o pior já passou, que a vida realmente faz isso com a gente, mas que no final temos cabeça para superar estes problemas. Tinha um emprego, podia começar de novo, existem tratamentos para seu problema na cama, a vida ainda era boa, pouco lhe importava se sua esposa não agüentou o tranco. Pensa até em escrever uma carta lhe agradecendo por ir embora, porque isso com certeza era uma segunda chance. É, uma carta seria ótimo, escrita à mão, agradecendo por tudo, talvez até falando da.........

    Não.

    Mas não mesmo.

    Nãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonão, isso não está acontecendo.

    Mas aconteceu. Por um segundo, de costas para o poste, viu sua sombra projetada no chão. A madrugada se iluminou como se fosse dia, com o clarão que atingiu as costas de Eugênio. Ele agora se imagina enrolando a carta e pegando AQUELA VAGABUNDA DO INFERNO, DE QUATRO, E ENFIANDO A CARTA EM TODOS OS BURACOS DE SEU CORPO SUJO!!!!!!!!!!

    Corre para o poste. Incrível como pessoas neste estado fazem coisas impossíveis; Eugênio escala com habilidade pelo poste, e sobre até a metade, onde vê a caixa preta. É o radar? Dane-se, só pode ser. Agarrado ao poste, apoiado em um buraco no mesmo, Eugênio solta uma das mãos e esmurra a caixa. Um golpe, dois, três e nada, só mais machucados na mão. Revoltado, pega a caixa com as duas mãos, e escorrega.

    Pendurado a 5 metros de altura, Eugênio agarra-se à caixa, fazendo peso para baixo. Grita como um louco, freneticamente, na sua maioria palavras desconexas e xingamentos:

    CAICAIXADAPORRAPUTASEVERGONHAQUERIREMBORAVAPROINFERNO VOCÊVAICAIR AGORA NEMQUEEUFIQUEAQUIATÉAMANHÃ!!!!!!!!!!!!!

    A caixa cede mais um pouco. Eugênio finalmente começa a se sentir um vencedor, vai cair, mas junto com a maldita caixa. Pensa até em pisar nela, como em uma dança da vitória, quando o brilho o atinge mais uma vez. O que ele grita, neste ponto do texto, já começa a ficar impublicável. Porém, tem algo de diferente nesse último brilho. Um cheiro de queimado ficou no ar...

    No seu antepenúltimo segundo de vida, sentiu que o cheiro vinha de seu corpo.

    No seu penúltimo segundo de vida, percebeu que o clarão desta vez não vinha da caixa, e sim de um relâmpago.

    No seu último segundo de vida, lembrou-se: “se o Eugênio já sabia como sua vida começou, ele já tinha uma idéia para onde ela iria”.

    Caiu, atingindo o chão de uma maneira que lhe quebraria alguns ossos, caso ainda pudesse sentir algo. A chuva continuava caindo, banhando o corpo, apertando e afrouxando a cada minuto, com os relâmpagos dançando em um baile de incertezas.